segunda-feira , 16 outubro 2017
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Coisas Que Não Esquecemos




A feira de Conceição era, até o final da década de sessenta, instalada no final da Rua Nova, hoje mais conhecida pelo seu nome -Solon de Lucena.

Tinha início ao lado da farmácia de Pai Alfredo se estendendo um pouco até a frente da Coletoria Estadual onde se via Seu Sérgio Vieira, Tio Luís Gomes e Seu Vital Braga cobrando o imposto dos vendedores avulsos.

Na Rua Nova eram vendidas rapaduras trazidas a lombo de burros embaladas em folhas de bananeiras – que ao final da tarde ficavam para serem retiradas pelos varredores da Prefeitura – e as mesas dos vendedores de fumo de rolo, sob o comando do velho João Mariano.

Para o outro lado, descia o Beco da Pimenta, passando pela loja de Teodomiro Rangel, se estendendo pela Rua Antenor Navarro, onde morava Dona Doninha e filhoscom a sua oficina de sapateiro, herdada do seu falecido marido, Lino Mangabeirae onde, ainda hoje, existe o bonito chalé de Seu Otoni Rangel. Ali vendiam frutas, verduras, legumes, farinha etc. e, principalmente, os característicos quebra-queixos de seu Luís Camboim e as barracas de vendas de comidas e de muita cachaça.

Na Rua da Igreja, Rua Cônego Antônio Andrada, eram armados os bancos dos vendedores de tecidos e roupas feitas, fazendo concorrência com as lojas instaladas de Seu Pedro dos Anjos, Seu Antônio Rodrigues, Teodomiro Rangel e Seu Amâncio Nuto.

A feira era uma festa, desde que não houvesse uma briga entre os valentões que bebiam muita cachaça comendo os tira-gostos de Maria Gino. Quando havia alguma arruaça os valestes eram, de logo, contidos e levados para a cadeia velha no início da Rua Nova, pelo Cabo Estrela acompanhado dos Soldados João Aniceto e Manoel Gomes, seus únicos comandados para manter a ordem na cidade.

A feira era grande e em todas essas ruas muita gente circulava de um lado a outro, principalmente depois das dez horas da manhã.

Na bodega de Tio Dezinho Figueiredo sempre se encontrava Dona Das Dores Brito, magra, alta aparentando ter aproximadamente um metro de oitenta de altura, com seu característico vestidão comprido que arrastava até o chão, bebendo as suas características lapadas de cana e tirando o gosto com carne seca que trazia em uma sacola a tiracolo em que se misturava ao fumo que comprova na feira, dinheiro e outras coisas que ninguém sabia o que era.

Certa dia uma senhora foi comprar um pedaço de fumo – certamente para fazer seu cigarro de palha – ao velho João Mariano,um homem muito magro que só andava de paletó para esconder o físico e magreza. Ao pegar a prova do fumo que queria – todo vendedor deixava sobre a mesa ou tirava a pedido do freguês um pequeno pedaço do fumo para ser testado ou conferido pelo freguês – a senhora mascou um pouco e ao cheirar o fumo não segurou e soltou um característico peido. Toda encabulada, sem ter o que dizer, dirigiu para seu João Mariano e perguntou: “Não tem um mais forte não”? O velho vendedor conhecido pela sua presença de espírito, respondeu: “O de cagar eu trago sábado”.

Não tinha como não se gostar da feira. O dia de sábado era o dia em que eu ficava ajudando na farmácia de Pai Alfredo e, sempre, lá para as duas horas da tarde tirava uma moeda da gaveta e ia comprar um quebra-queixo de Seu Luís Camboim. Certo dia, acompanhado do meu fiel escudeiro e ainda hoje amigo, Taim de Seu João Claudino, ao chegarmos na barraca de seu Luís assistimos a uma cena inusitada. Uma senhora, de algum sítio, ao botar um pouco quebra-queixo na boca, servido em um pequeno pedaço de papel seda, teve a sua dentadura presa pela liga da guloseima – em Conceição conhecida como chapa, feita por Sitonho Oliveira ou Zé Bernardino. Aperreada e saber o que fazer a pobre senhora tentou botar tudo para fora. Nesse momento as duas chapas ligadas pelo quebra-queixo caíram no chão para sua infelicidade. A porca de Maria Gino – a conhecida porque andava solta pela rua comendo qualquer coisa que encontrava -, que estava só aguardando a oportunidade, pegou o conjunto chapa mais o quebra-queixo e abocanhou, mordendo o conjunto com tanta força que se ouviu o estalo dos dentes. Nesse momento eu e Taim montamos na porca, que saiu nos levando pelas barracas da feira, gritando: “a porca pegou a chapa da veia”. Foi um verdadeiro reboliço e um tumulto se precedentes na feira.

Ao saber da história meu pai e meu avô me proibiram de comprar o quebra-queixo de seu Luís Camboim por um bom período.

Alfredo Sá Neto

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