segunda-feira , 18 dezembro 2017
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Coisas Que Não Esquecemos 2




antiga-lamparina-a-querosene-721311-MLB20507300777_122015-FReligiosamente as oito e meia da noite Pedro da Luz ou Zé Rosa dava o primeiro sinal informando que a luz iria se apagar, o que ocorria, religiosamente, antes das nove horas.

Antes da luz se apagar todos corriam para casa. Eu era um deles. Entrava em casa iluminada a luz de candeeiro e já via meu avô, Pai Alfredo, ao pé do rádio à bateria ouvindo a Rádio Globo ou a Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Quando não era um noticiário, era um jogo de futebol narrado por Valdir Amaral com comentários de Luiz Mendes e Mario Viana – forte crítico dos juízes de futebol da época.

Antes de ir para a rede eu fazia um lanche com um pedaço de rapadura e outro pedaço de queijo de coalho feito por Tia Nôzinha, esposa de Seu Epitácio Ramalho, ou por Dona Mariquinha de seu João Ferreira do Saco. De barriga cheia tomava-se um caneco d´água do fundo do pote e a noite era uma criança, até me acordar no outro dia, por volta das seis horas, para ir ao Grupo Escolar José Leite na Rua Nova para estudar com Dona Terezinha Martildes, minha querida professora e diretora da escola. O prédio existe ainda hoje e Graças a Deus é muito bem conservado.

Com as ruas em escuridão total – escuro de meter dedo no olho, como se dizia em Conceição -. Não se ouvia nenhum barulho, a não ser da velha rasga mortalha que vivia e fazia seu ninho no alto da torre da igreja e a noite saia para caçar os ratos da cidade, sua comida preferida – a coruja em era assim chamada na minha terra pelo seu canto que parece alguém rasgando um tecido e tecido ou pano representa mortalha, assombração, ave de mal agouro. As pessoas da minha terra, na época, não sabiam da importância que tem a coruja para o meio ambiente, principalmente no controle de insetos, de ratos e outros roedores.

Sempre no outro dia, após uma longa noite de escuro, se dizia que as únicas coisas que andavam pelas ruas eram as raparigas, os viados (com i mesmo para representar as bichas), Chico de Baeta vigiando a praça da matriz,Augusto Rosa, que saia acordando as pessoas para viajarem no ônibus que saia as quatro horas da manhã para Patos, Campina Grande e João Pessoa – inclusive ele ia buscar encomendas em Patos, remédios etc. -,e o lobisomem com sua característica capa preta, que ninguém sabia quem era, andando pelas ruas fazendo medo às pessoas. Aliás, Maria Biró dizia que sabia quem era, mas, não podia dizer porque tinha medo de represálias. O certo é que, quando aparecia alguém no meio da noite ele corria e se escondia para não ser reconhecido.

Augusto Rosa dizia que, várias vezes o viu escondido atrás de obstáculos no escuro – mais escuro do que era a noite – mas que, nunca o tinha visto cara a cara e nem com ele conversado. Já Chico de Baeta, após tomar umas lapadas de cana dizia que várias vezes acordou na praça, debaixo de uma moita de mato em que costumava dormir, com o bicho perto dele. Chico tomava a famosa cana de Emiliano – cachaça fabricada em Conceição, reconhecidamente a pior que já existiu no mundo Belo Pires a chamava de Boa Viagem, porque tomou morreu –, por isso o velho Chico via bichos durante à noite.

A verdade é que não se tem notícias de que o lobisomem chegou a atacar ninguém. Parece que era um homem comum que gostava de aventuras amorosas durante a noite, por isso perturbava as quengas e os viados que procuravam casos amorosos.

Lembro que certo dia após um baile de Baúna, no final da Rua do Motor, perto da Rua dos Sete Ranchos, o inusitado quase se deu mal ao correr atrás da neguinha Fumacê, que morava no início da Rua de São José, já perto da casa do crente inglês, Seu Alberto e dona Mary, na esquina da Rua do Motor com a Rua de São José. Aqui faço uma observação para fazer uma afirmação: “quem não conheceu os bailes dos nêgos como dizia Baúna, com Deoclécio tocando um fole de oito baixos, João Madalena tocando banjo e cantando Amélia e Luiz Canela na bateria, não viveu em Conceição na década de sessenta.

No Baile de Baúna não tinha ninguém que dançasse como a neguinha Fumacê – moreninha, pequenina, bonitinha, rodava que só uma carrapeta e tinha uma qualidade, não deixava ninguém se encostar nela pra valer, não só eu mas vários tentaram algumas vezes, mas, a pequeninha escorregava e corria -.

Querendo se aproveitar da situação e da escuridão da rua, o homem da capa preta ficou esperando Fumacê passarna direção de casa, após o fim da festa de Baúna. Ao ver um vulto no escuro – embora as ruas ficassem um pouco iluminadas pelas luzes do candeeiros da casas -, notou que era elaque vinha sozinha pela rua. Sem esperar o bicho atacou, a pequena deu-lhe um drible de corpo e arrancou na carreira por um lugar que conhecia mesmo no escuro. Ao se distancia do inusitado lobisomem a moça começou a gritar e das casas saíram parentes por todos lados para socorrê-la armados de pau, facas e com o que encontraram. Diante da situação inesperada, o homem da capa preta, recuou, sumiu no escuro e ninguém sabe para onde foi. O certo é que depois disso, segundo Augusto Rosa e Maria Biró o lobisomem passou um bom tempo sumido deixando as ruas em paz.

Alfredo Sá Neto

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